Não se assustem ou se surpreendam com esta nova rodada de ataques aos “identitários”, que recentemente, tem se descrito como uma crítica contundente às minorias políticas, mas em maior escala, aos negros e suas pautas políticas. Do diretor da Fundação Perseu Abramo, ligado ao Partido dos Trabalhadores (PT), passando por uma crítica on passant aos movimentos “identitários” nas lives do Leonardo Attuch com o Pepe Escobar na TV247 no youtube (07/01/2022), nos debates sobre geopolítica internacional, tambem ligada ao mesmo partido, se percebe um incômodo generalizado com as provocações e contundência desses movimentos, e nisto, uma tentativa de associá-los indistintamente de uma agenda globalizada, controlada pelo neoliberalismo.

A matéria na Folha de Antônio Risério (15/01/2022), ao criticar os movimentos negros sob a acusação de um “racismo reverso” (sic), nos mostra que no arco tanto da esquerda quanto da direita (digo mais pelos posicionamentos do jornal), há uma reativação da coalizão política de ataques aos movimentos negros (MN), mas sobretudo, às agendas defendidas peloa grupos do MN. Cabe ressaltar que não é uma coalizão pactuada pelos grupos dos polos ideológicos, ou seja, não é um acordo consciente, mas sim, respostas e reação a uma pauta que, embora pouco tenha sido falada até o momento, tem seu ano decisivo agora em 2022: a revisão sobre a continuidade das ações afirmativas nas universidades públicas.

Não me parece algo fora do propósito pensar isto, haja visto como tem sido paulatino os ataques, principalmente no jornal “Folha de São Paulo”, que se num primeiro momento pretende lucrar com celeumas baseadas em ressentimentos e crítica despropositada a pretexto de se atribuirem um verniz democrático, aciona novamente o maquinário ideológico fincado no privilégio branco que sempre foi contra as AA’s e que pretende fazer o mesmo papel neste momento, requentando falsos argumentos e criando outros puramente fantasiosos, o que reacende parte da sociedade hostil e que se sente aviltada por tais políticas.

Espaços para Narlochs, Magnollis e Risérios, entre outros, sempre numa seara que está deslocada de suas áreas de atuação e que sempre constam dados falsos ou puro rancor travestido de opinião, é estar parado no tempo quando a roda do mesmo já girou, mas que o jornal e seus articulistas se recusaram a ver. No fundo, seus interesses se mostram incompatíveis com o progresso social das pessoas negras, pelo menos quando as escolhas para tal progresso não se alinhem aos definidos pelos patrões/barões que lucram com a miséria, embora a critiquem em seus jornais.

Com relação ao pólo da esquerda, se vê um duplo movimento, em que parte da crítica aos “identitários” se desenvolve como se os mesmos fossem meros títeres sob os quais não se enxerga uma nesga de protagonismo, como se toda a pauta reivindicatória estivesse atrelada a um xadrez maior da luta política nacional e internacional, da qual nós (os não brancos), fossemos os peões na mão de quem manipula as peças. Isso é desconsiderar uma pauta histórica de reivindicações, que remontam ao século XIX, da qual se pode muito bem traçar sua continuidade. Há o que se criticar, mas é interessante analisar o momento em que elas se desenham, e a qual proposição se alinham. O segundo movimento, em decorrência do primeiro, estar em crer que está movimentação identitária – estamos falando em boa parte dos casos do MN, de pautas de manutenção da vida e dignidade humana – atrapalhariam o objetivo principal na luta contra a desigualdade e contra o capitalismo. Ou seja, se faz o jogo a favor do capital por “dividir a classe trabalhadora”, por distraí-la do principal objetivo. Mas quem atribui valor a este objetivo? Quem lhe dá caráter universal e deixa as outras reivindicações como algo menor?

Nem é preciso dizer o quanto essa percepção é um contrassenso da, realidade e apenas demonstra a visão homogênea do que seria a classe trabalhadora, e como esta percepção é um reflexo cultural destes dirigentes brancos da esquerda sobre o que é o problema de fato, e sobre as prioridades do que deveria ser resolvido. Neste ranking, fica nítido que genocídio indígena e preto, as mortes exacerbadas de mulheres e pessoas trans é algo importante no ranking na medida em que podem ser capitalizadas politicamente, em momento eleitoral, como o que se aproxima. Que por termos um governo execrável, não se pode tecer críticas a quem é oposição ao governo Bolsonaro por serem “aliados”, como se o germe do ressentimento não fizesse morada nestas pessoas brancas, que se sentem ultrajadas por serem criticadas ou expostas na medida dos seus erros políticos e pessoais, ou seu ganhos com pautas relacionadas a essas minorias. Elas desconsideram as nuances do racismo, enxergando-o pura e unicamente no bolsonarismo fétido, como se a própria existência desse esgoto limpasse suas casas e consciências do que elas promovem e lutam para manter. Esta oposição calcada em críticas bem escritas e bem elaboradas não lhes tira a alcunha de racistas. A história mesmo nos mostra o quão abertos realmente os partidos de esquerda e seus dirigentes tem sido com relação à pauta racial. Mas isto não é uma crítica aos partidos de esquerda, pois no fundo, não espero sua conversão real aos interesses dos “identitários”. Só finjo espanto aos que acreditam.

O debate vai ser colocado novamente sobre a continuidade das ações afirmativas, com um lado sendo decididamente contra, como tem sido o posicionamento em editoriais, campanhas e pelos posicionamentos de seus articulistas PJ em artigos de opinião, sempre prontos a escreverem qualquer bobagem sem fundamento e verem seus escritos em destaque e temos a esquerda, principalmente por parte dos que decidem os rumos – ou seja, brancos mais velhos e toda a carga de poder hegemônico que isso traz – criticando de maneira desenxabida reivindicações legítimas das minorias politizadas, que também por conta das AA’s e sendo fruto delas, não têm a paciência, docilidade e deferencia que estes figurões esperam receber. Talvez esteja aí a gênese dessas acusações beligerantes, quando na verdade seja apenas impaciência. No ímpeto de restabelecer estas hierarquias no campo simbólico, acabam por acertar a agenda destes grupos e no caso do MN, o debate que ganhará força nas universidades públicas que adotaram as AA’s para ingresso de pessoas pobres e negras.

Estejamos atentos, porque veremos a mesma ação de antes, com a branquitude por todos os canais possíveis, tentando reestabelecer o lugar de privilégio familiar das universidades públicas, como uma herança que sempre foi, tentando expurgar os “invasores”, ou seja, nós. Não é uma questão de dados, argumentos e diálogo para convencer pois isto tem aos montes. O que está é sempre esteve em jogo é o poder, e pra isto, toda aposta contra o progresso negro é válida. Um bom ano de combate a quem lutou pelas cotas, quem é cotista e pra quem pretende usufruir ou deixar um parente usufruir. É do futuro que estamos falando, mais uma vez, como temos falado desde o pós-abolição.

Escrito por: Tago Elewa (Thiago Soares), em 20 de janeiro de 2022

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s