Relembro aqui um texto que escrevi em 2018*, bem curto, em que dizia que a escolha dos brasileiros pelo Jair Bolsonaro como presidente talvez tivesse sido uma etapa em que todos, sofrendo em conjunto, poderiamos aprender com esta situação e demarcar quais seriam as linhas que jamais deveriam ser ultrapassadas novamente. Que na dor, como acontecido em diversos lugares ao longo da história humana, poderíamos pontuar um novo patamar civilizatório jamais ocorrido no pais. Eu, obviamente, estava enganado. O Brasil não é para amadores, e tem sido cada vez menos para sonhadores.

Aqueles que confiaram seu voto no Bolsonaro esperando uma recondução da crise econômica iniciada em 2014, advinda da crise política de 2013, deram com os burros n’àgua. Os mais pobres, que viram no navio furado a sua tabua de salvação, foram os que mais perderam com a total falta de gerência política e econômica que se tem história no país. Mas isto não quer dizer que os outros segmentos não tem sentido um sentido de devastação das próprias vidas e esperanças mediante um governo em que as propostas mais razoáveis, mais ordinárias, se transforma em um cabo de guerra e falta de coordenação mínima. Isto, sem falar nos casos de corrupção que atinge a todos os filhos do atual mandatário e mesmo sua esposa. O que fica patente é que a atuação presidencial tem sido cada vez mais dirigida a proteção de seus entes familiares, transformando a máquina estatal em um aparato político-jurídico de enfrentamento às mais diversas acusações.

A questão do uso da máquina pública para fins privados, ou o conhecido peculato, ganha contornos ainda mais graves diante do que tem sido a gestão federal com relação à pandemia do Covid-19. A União, na figura do presidente e dos ministros do seu entorno, tem sido a principal sabotadora dos esforços de combate ao vírus, seja com a desqualificação das vacinas como medidas de combate ao vírus, seja por meio da burocracia nos repasses de recursos de combate à pandemia aos estados e municipios, ou ainda por uma conduta pessoal do presidente de simplesmente diminuir a gravidade da doença e do número de mortos, produzir aglomerações com ataque às medidas de distanciamento social e ao uso de máscaras ou dos ataques narcísisticos sobre as medidas emergencias tomadas pelos prefeitos e governadores, frente ao colapso do sistema nacional de saúde. Ele é efetivamente um semeador de óbitos, um facilitador do estado de caos sanitário ao qual todos, sem exceção, estamos submetidos neste momento. No entanto, ainda sim cabe a pergunta: com tanto caos, mortes e inanição governamental, por que ele não é retirado do poder? Por que ele ainda tem apoio?

No meu entender, porque o país historicamente é conivente com o Horror. Podemos estar ligeiramente incomodados com sua face crua, mas a sua presença oculta sempre foi abraçada como parte do caldeirão cultural nacional. Não é apenas a escravidão que produziu uma mentalidade de subhumanidade para corpos negros, mas a leniência com a violência extrema à mulheres, povos indígenas e quilombolas, o entendimento sobre o sentido das cadeias, presídios e manicômios, a solidariedade aos outros que mais diz respeito a quem dá do que a quem recebe, aos linchamentos e enforcamentos de inocentes, com suas exposições em postes de luz. Temos sido um produto de aceitação do que deveria ser exceção como normalidade, onde este Horror à humanidade alheia tem sido uma marca subcutânea de nossas relações.

Os efeitos são nítidos: somos ao mesmo tempo anestesiados pelo excesso de violência sofrida e ao mesmo tempo somos tomados pelo sentimento de urgência da sobrevivência, que nos tira a solidariedade do campo público, a preocupação com o outro do nosso raio de ação. É uma lógica que permeia tanto ricos quanto pobres, mas por razões distintas: os primeiros, dentro da sua lógica de merecimento do melhor viver, duma idiocracia travestida de mérito, as vidas que lhes importam são as suas, pois a sua vida deve ser vivida em total liberdade, num sentido que as demais se apequenem ou sejam engolidas à sua vivência; aos últimos, escorchados pela falta de cuidado histórico, visto como peças (de carne, mecânicas, descartáveis), se recusam a abrir mão da nesga de prazer que a dura vida pode conceder. Se servem para produzir lucro durante esta pandemia, se enxergam no direito do gozo, mesmo que em ambas as condições o abraço à morte esteja mais presente. “Eu não sei se vou estar vivo amanhã”, dito por ricos e pobres, sendo o farol das ações arriscadas à própria vida e produzindo milhares de mortes diárias e muito mais dezenas de milhares de infectados.

Para pessoas pretas, o bafejo do vírus tem sido mais cruel: maior número de desempregados, mais impactados pelo fim do auxílio emergencial, maior número de mortos… As ações do presidente tem um efeito ainda mais macabro em nossas vidas e famílias, sendo que em muitos casos, por obra da aceitação das mentiras proferidas pelo mandatário. Fazendo um recorte de gênero, quantos homens pretos tomam a figura do presidente como a de um homem forte, que manda e é obedecido? Quantos reconhecem nessa falsa força (na real, muito medo) a verdade do que está sendo dito, e dilaceram a própria família, e a si mesmos, sendo as principais vítimas do Corona em 2020? Seja pela pobreza, falta de acesso e cuidado ou identificação positiva na figura do Bolsonaro, encampam o sonho de destruição presidencial das figuras descartáveis, simbolizadas numa necropolítica que “só vai ficar vivo quem merece”, quem não sucumbir à “gripezinha”. No não-dito, somos a carne que inunda os cemitérios e as covas rasas sem nome. Pois, quem é que tem que trabalhar para não morrer de fome? Quem tem de sair presencialmente para a economia continuar girando sobre nós? O brasil, nas palavras do Bolsonaro, é uma grande plantation em que o engenho deve continuar funcionando, sem pensar muito na quantidade de escravizados perdidos.

Com um cenário destes, qual é o limite? O Horror só é limite para quando enxergamos sua presença num estado de exceção, na suspensão do cotidiano e da normalidade, nos pondo em choque. Se o brasileiro se chocou alguma vez com a violência (à exceção de crianças brancas), ele a perdeu na memória em algum momento. Mas ouso dizer que a configuração da mentalidade brasileira, por baixa da alegria festiva, sempre teve a vivência do Horror como parte, companheiro de jornada, até para que se permitisse viver de maneira naturalizada. Às elites que há 4 gerações atrás mandavam caçar “negrinhos fujões” e açoitá-los, vêem no presidente a evocação dessa natureza senhorial, e a isto, nenhum vírus vale o preço.. Ainda mais se cumprir com o papel de higienização sóciorracial.

Paremos de buscar apenas nas fake news o descalabro civilizacional que temos vivido. O traço histórico-cultural que permitiu uma figura como o bolsonaro nos leva às caravelas, e a sua possível saída do poder, pode estancar uma sangria intensa, mas é preciso se perguntar o que queremos salvar. Se o DNA cultural brasileiro carrega tanto de bolsonaro, o que se coloca como limite civilizacional à humanidade vivenciada aqui?

A falta de empatia e de solidariedade humanizada não nasceu com o Bolsonaro, mas encerra nele sua maior expressão. Ou se busca este novo horizonte para as vidas no brasil – todas elas – ou a repetição desse moedor de carne é questão de tempo. E não precisaremos de uma pandemia para enxergar.

Por: Tago E. Dahoma (Thiago Soares), 21 de março de 2020.

Nota(*): Texto de 2018 escrito aqui no blog:
https://papiroindomito.com/2018/10/05/o-horror-tambem-educa/

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