De cara, perdoem-me o texto longo. Mas relatos assim não me são tão frequentes.

Já escrevi muitos textos indignados e sufocantes sobre as mortes de pessoas negras. As violências que nos atingem e o vácuo da perda das vidas naqueles que ficaram. Do terrorismo estatal e urbano que nos assola. No entanto, esse me parece mais truncado e difícil, pois é um relato desses efeitos em mim, na minha maneira de enxergar o mundo e me posicionar nele. Tenho tentado falar sobre este medo da morte faz algum tempo, mas sempre sinto as barreiras de falar algo tão onipresente ao longo da vida de pessoas parecidas como eu.

Diante de tantas vidas perdidas mostradas nos jornais impressos, em programas de televisão, de conhecidos de infância e conhecidos, quais os efeitos em mim? Uma retração em me sentir bem nas ruas em determinadas horas.. Durante a infância um medo da madrugada, como se a mesma fosse um escoadouro de vidas, por mortes violentas. Portanto, a casa se torna a fortaleza impenetrável, o espaço seguro contra a insegurança da porta pra fora.

Há também algo cruel para quem gosta de se sentir livre: uma desconfiança de estar nas ruas. As ruas, o espaço público passa a ser enxergado não como o lugar de encontro, da troca, mas do choque e da tensão. Há alguns anos eu percebi que a rua era apenas um espaço de trânsito para lugares fechados, sempre de um para outro. Me peguei pensando nesta energia de Èṣù nas ruas, e o quanto que me privo por medo da maldade chegar antes de sua proteção. Olhando as esquinas e as pessoas nelas como alvos, a aglomeração masculina nos botecos também. Espaços enxergados como a intersecção da raça com a pobreza como elementos do gozo violento. De quantas conversas me provei, de risadas e desabafos emotivos? Também dos conflitos e riscos..

A tensão dos encontros desconhecidos, o auto-controle diante de situações surpresas. Uma certa desconfiança no inesperado, porque um corpo negro masculino gera tensão nos outros, um medo que gera ódio, que gera mortes. Fico pensando nos cálculos de quem decide assaltar um homem negro, no que está disposto a fazer numa atitude inesperada, no susto. Os estereótipos de violência impostos a nós agindo para que sejamos mortos sem nem esboçar reação. Serve para pensar assalto, mas e as abordagens policiais? E as confusões com sacos de pipoca, furadeira? E aqueles que morreram por esperar o delivery ou voltando pra casa? Não é só o descalabro da morte, mas o seu impacto social em mim, em nós, que nos vemos sujeitos às mesmas ações?

Ano passado, numa fala sobre estratégias de sobrevivência, percebi que ao voltar tarde pra casa, eu sempre caminhava com livros nas mãos até estar dentro de casa. Depois, tive a certeza inconsciente que o livro era um escudo em minha mente de possíveis agressões, que fariam as pessoas associarem a mim, por meio do livro, uma boa conduta, a possibilidade ao menos da dúvida, da explicação sobre qualquer coisa imputada.

O desgaste de um auto-controle que é sempre chance, nunca é certeza. E que sempre parece chance perdida quando alguém parecido comigo é morto. Que num tem poção mágica pro racismo letal aos homens negros. Que há uma roleta-russa com nossas vidas das quais por hoje, por um milagre dos deuses, eu escapei hoje, mas que posso não escapar amanhã.

Não é só a violência armada. É a velhice que parece que perdeu o nosso rastro, ou a gente que a perdeu nas nossas andanças. De quando olho para os que estão de cabelos brancos, estão como, chegam até onde? Ver homens negros idosos inteiros em sua velhice, que possam ser espelhos de integridade, de cuidado de si. Um sonho? Como vencer o inferno sem os arranhões graves, sem os sintomas no corpo e na mente? A deterioração em vida, mesmo sob uma capa aparentemente bem cuidada. Quem pode dizer que viu o avô chegar aos 80?

Diante disso, o que a morte significa pra quem ficou até agora? O que a morte significa pra mim? Uma sombra.. Que bafeja seu hálito de maneira constante a lembrar a sua presença, causando um medo onipresente. Nisto, como este medo atravessa meus planos de futuro? Da maneira mais cruel, porque dá uma ideia de perenidade, de algo fugaz. Traçando planos e vendo o que posso deixar ajeitado para a família que agora formei caso não esteja mais presente. Como um testamento mental sempre pronto. Eu teimo em traçar um futuro, mas vivo pensando em quem nunca foi incentivado a tal ou viu nas evidências do ódio cotidiano que não há um futuro pra si, como não houve pros seus mais velhos e não terá pros que vierem depois. Futuro (como investimento, como preparo) é ao mesmo tempo uma esperança e um certo tipo de legado que se recebe. O que temos recebido? O que tenho recebido que me leva a caminhar, ora com pernas firmes, ora não, o futuro que se avizinha, em cada véu da noite e alvorecer que rompe? Às vezes vejo como um milagre.

O que atenua o inferno é a minha fé, é Orí em atenção permanente mesmo nun desgaste monstro pra não ser pego desprevenido, e Èṣù é Ògún, primordialmente. É Capuera que faz de mim e de meu corpo morada fértil pra nutrição de corpo e alma, além de ensino de sobreviventes de séculos antes de minha existência neste plano. A família criada, de sangue e expandida, que evocam o que há de melhor em mim. São Neles e nas Forças que atenuo esse oceano de medo, querendo transformar em lago, em botar borda pra fazer meus planos de vida. Pra me achar potente pra construir e crescer, apesar dos riscos. Os custos são altos em todos os lados, mas o de nada fazer é ainda mais danoso.

Terra sem plantio pode até dar algo, mas não o que você precisa.

As alegrias destas escolhas, dos avanços, indicam pra mim que tenho acertado apesar.. Sempre o apesar no fundo da mente, do nó da garganta. Mas assim como outros antes de mim fizeram, brincar com o medo pra que o seu frio não tire o calor da vida; que a morte há de chegar em um momento, mas que sempre que possível, eu possa negociar a minha ida cada vez mais a frente, cada vez mais tarde.. Para que eu ouse Viver além do que os meus mais velhos já viveram e possa ver o fruto de minhas escolhas progredindo, desenvolvendo.

Pensei o meu relato, mas sei que é só pela via colaborativa e organizada, por nossa vida, isso será atingido. Por nossas vidas, primariamente, pela dignidade do nosso viver. Meus caminhos individuais significam muito pouco a um igual a mim, com os mesmos riscos. Não existem soluções individuais para o terror coletivo, a não ser ilusão. Dos nossos medos conjuntos é preciso transformar em uma ação de valorização de nossa vida, e de um efetivo combate às nossas mortes. Que possamos produzir o nosso direito efetivo a uma vida com o medo normal da morte, não este tão colado em nossas costas.

Um direito negado, que pretendo até o fim tentar exercer.

A morte não vai me definir, tampouco o medo!

“Êeê
O medo da morte não vai me vencer!”

Por: Tago Elewa (Thiago Soares), 13 de novembro de 2020.

4 Comments

  1. Seguimos as estradas da vida. Com audácia e a persistência daqueles que não se entregam as conveniências. O medo é a outra metade do que chamamos coragem. Então, tenhamos a coragem de está presente diante de tantas ausências. Nos movimentamos nos caminhos da vida, abertos por Esú.

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