Uma pergunta cabível neste momento em que o país está preste a bater a casa das 100 mil mortes oficiais. Perguntem-se: houve um real embate contra o vírus? Se foi travada uma guerra, ela foi relâmpago e a parte de quem preza pelas vidas, perdeu. As discussões por parte dos governos estaduais, que no início da pandemia lançaram esforços para o enfrentamento à dispersão do vírus, com isolamentos e quarentenas, hoje flertam com aberturas de comércio e volta gradual da atividade econômica, mesmo diante de um quadro de aumento de infectados e mortes em seus territórios.

Fazendo o retrospecto de apenas alguns meses, o choque de um vírus que estava fazendo estrago na europa e na china, com centenas de mortes diárias e caos social, causou pânico quando o primeiro caso foi noticiado no brasil, no começo do ano. Na intenção de conter a propagação, várias medidas foram tomadas, com comércios e escolas fechadas e as máscaras e o álcool em gel fazendo parte do nosso cotidiano como se fossem peças íntimas. A tentativa de se manter a si e aos familiares seguros fez com que o apoio ao isolamento fosse muito alto, embora não tenha alcançado 70% em nenhum lugar do país. As necessidades e as políticas de transferência de renda não alcançaram os que deveriam ser resguardados. A rua continuou a ser o espaço de busca do pão, mesmo quando deserta.

O “faz-de-conta-que-preside” sempre se colocou contra as medidas de resguardo e cuidado, seja diminuindo as possíveis consequências que o vírus causaria,  ou mais tarde, não gastando todos os recursos disponíveis para melhor aparelhar as estruturas estaduais e municipais com máquinas e insumos. O governo federal gastou apenas 29,3% dos recursos orçamentários liberados para o combate ao Covid-19 [1]. Ou seja, é um governo que não leva a sério a gravidade do problema, negando sua gravidade e com estímulos explícitos de retorno das atividades, com questionamentos e desconfianças à Organização Mundial de Saúde (OMS) e, quando indagado sobre o número crescente de mortos, dá de ombros, como se não fosse uma responsabilidade sua a resolver. A maior preocupação do presidente B.O. tem sido andar de jet-sky enquanto faltam remédios para as pessoas internadas na UTI. Temos sofrido o impacto dessa aposta no caos, com o Brasil sendo o 2º país com maior número de infectados e mortos, atrás apenas dos Estados Unidos, capitaneado por quem também não levou a Covid-19 a sério, e que até hoje não a combate com o rigor necessário.

As dificuldades de se manter em casa, seja por questões ideológicas, por conta do trabalho ou mesmo para sacar o auxílio emergencial, tem mostrado que a curva de infecção do vírus no Brasil faz um ângulo que não se assemelha com quase nenhum país, dentre 150 analisados [2]. Uma curva que não cai, onde o número de mortes continuam exorbitantes, num ritmo que parece ascendente. Do terror inicial e do medo, hoje só há nostalgia. A menção à morte por tanto tempo fez com que o perigo do vírus se tornasse algo como a violência: se você tiver sorte, você sai ileso.  Há uma sensação de anestesia, de entorpecimento diante das covas, dos choros, das máscaras… Um cansaço de uma mudança tão brusca na rotina, nos encontros, na vida cotidiana, o que enseja uma busca pela “normalidade”, pelo apesar de… Um auto-engano, uma ilusão da vacina mágica que retira todos os perigos já amanhã. Nisto, como num despertar de um sonho ruim, volta-se aos trabalhos, às atividades, ao burburinho dos movimentos, e a marcha fúnebre oficial está prestes a contar 100 mil corpos..

Destes 100 mil, quantos corpos negros? Dados do SUS (Sistema Único de Saúde) mostram que a vítima padrão da Covid-19 é homem, negro e pobre[3]. O desespero inicial com relação ao vírus tem também um recorte de raça e classe. Eram pessoas brancas de classe média e alta que estavam sendo infectadas e morrendo. Na medida em que se estabiliza o número de infectados e mortes e o vírus adentra as periferias brasileiras, muito dos temores se esvaem. Isso também não deixa de ser uma forma como o racismo e seu desapreço pela vida negra atua no brasil num momento histórico pelo qual estamos passando. Estamos falando de uma letalidade que chega a 90% em locais pobres[4]. Esta taxa faz com que a Covid-19 se pareça com uma sentença de morte às pessoas em vulnerabilidade social, sem nenhum outro recurso senão à saúde pública.

A contagem regressiva para os 100 mil mortos tem um quê de macabro. Que esconde a quantidade enorme de subnotificações, de mortes contadas como pneumonia ou Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Passamos dos 100 mil há muito tempo, provavelmente há alguns meses atrás. Creio que o olhar estatístico sobre esse número gigante de vidas ceifadas seja uma maneira de mostrar quão funda é essa cova em que todos fomos colocados, e que parece ainda afundar. Que estas mortes não sejam apenas dados, mesmo sabendo que o caráter nacional é moldado em acreditar que se a morte não for de pessoas brancas, é uma morte cabível, seja em qual contexto for.

Por: Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares), 03 de agosto de 2020.

Referências:

[1]
https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2020/06/29/interna-brasil,867800/ministerio-da-saude-so-gastou-29-3-de-recursos-para-combater-covid-19.shtml ;

[2] https://www.em.com.br/app/noticia/nacional/2020/06/04/interna_nacional,1153866/brasil-completa-100-dias-de-covid-19-com-maior-curva-ascendente-no-mun.shtml ;

[3]
https://cnts.org.br/noticias/vitima-padrao-de-covid-19-no-brasil-e-homem-pobre-e-negro/ ;

[4]
https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/metro/covid-19-taxa-de-letalidade-e-ate-18-vezes-mais-alta-na-periferia-1.2972563;

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/08/em-uti-de-hospital-da-zona-leste-de-sp-maioria-nao-sobrevive-a-covid.shtml

 

 

 

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