Essa é a minha primeira resenha aqui no blog. Resolvi começar pelo “Livro Preto de Ariel”, de Hamilton Borges, pelo vigor da obra e por sua importância, no que aponta como literatura e como política. Fora a minha intensidade na leitura. Simbora!

De imediato, diria que O “Livro Preto de Ariel” é uma realidade coletiva, das nossas agruras e nossos sonhos de suplantação do racismo e da violência estatal. Algo que esvazia a noção presente de cidade-túmulo, por um projeto de insurreição silenciosa, subterrânea que irrompe e faz ruir o ponto “necrálgico” dos sistemas de morte para conferir poder a quem é vitimado, é alvo e mira desse aparelho genocida.

Hamilton Borges em cada capítulo desdobra a história de Ariel e de seus personagens de forma muito rica, com um dinamismo que faz com que o livro, mesmo sendo de certa forma um relato crível das atrocidades encampadas e patrocinadas pelo terror policial em Salvador (Nordeste de Amaralina), não perde o fio da meada de uma história ficcional. Acaba por adensar o romance ficcional ao mostrar os personagens e suas relações de maneira diversa, como a realidade realmente se/nos apresenta.

Em alguns momentos, o fio da meada entre ficção e realidade se confunde, como nas invasões policiais presentes no livro: a invasão ao Nordeste de Amaralina nos mostra o terror dos moradores, o desespero que precede o caos, escrito de maneira magistral pelo autor. A outra é tudo o que envolve o cárcere de Ariel no presídio estadual Lemos Brito.

Aliás, a descrição dos presídios não deixa de ser uma denuncia ao sucateamento das cadeias públicas com toda a sorte de condição miserável e desumana, ao ambiente estéril das parcerias público-privadas, com sua noção de controle inumana, com efeitos psicológicos nos presos. O processo de definhamento mental e dos choques contra essa condição nos traz uma noção bem acachapante de como por um lado a noção do preso como um ser inumano orienta a lógica do sistema público carcerário, e na segunda, como o preso é apenas cifrão para um grande negócio que necessita sempre de presos pra auferir lucro aos grandes empresários, geralmente ligados ao sistema público carcerário.

No entanto, se o livro ficasse apenas no terror policial, na corrupção das relações de poder e no sofrimento dos personagens, seria um panfleto, com todo o direito de sê-lo. Contudo, vai além ao trazer uma narrativa que coloca nesse manancial de dor, muito amor: amor fraterno, parental, de casais, pelo conhecimento através da alfabetização e do que os livros proporcionam.. Amor por um futuro que virá, rabiscado em, letras garrafais de esperança. Uma força vinda de Mulheres Pretas que são coluna de suas comunidades, esteio de suas famílias e barreiras ideológicas e corporais contra as forças policiais e institucionais invasoras. Com isto, se torna complexo e uma obra única na união de temas que nos são tão caros: a denúncia é combate ao ódio destilado às nossas vidas e o amor a nós como potência transformadora.

Ariel é um anjo sem asas, de cara preta, que anuncia o fim dos desmandos, que esquadrinha a cena atual e projeta o nosso revide futuro. Tão nas quebradinhas e presídios, nos bares e nas associações comunitárias… Está em cada louco e louca que ousa uma vida digna e próspera pro povo preto nesse calabouço, que há de virar outra coisa, outro mundo, outra história para vivermos. Realmente vivermos.

Por: Tago E. Dahoma (Thiago Soares), 26 de julho de 2020.

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