Ce já se ligou que tudo que o povo preto fez culturalmente no brasil foi pra se manter vivo? Samba, Capuêra, Reizado, Batuques e várias outras manifestações. Estes fragmentos de Áfrika foram elementos de salvação mental e psíquica ao nosso sofrimento deste lado do Atlântico.

Lógico, desenvolvemos muito mais coisas, tantas outras com elementos nativos e com os algozes, nessa alquimia tão estranha. O fragmento que nos deu e dá suporte combatido de várias formas, violentado, e a gente no suporte. A dita “brasilidade” sendo um trator do elemento cultural e humano preto. Se por ora aceitou alguns traços de nossa africanidade como algo seu (não sem transformação, sem mastigação e cuspe do que é nosso mais genuíno), para as novas manifestações, o mesmo ciclo de horrores já passados. O funk é assim, o brega.. e nisto os nossos corpos, a nossa presença sob ataque.

Cabe aqui ressaltar o que quero dizer com brasilidade. A construção de nação no brasil é muito recente, sendo de fato uma preocupação das elites brasileiras a partir dos anos 1910, com um esforço de construção a partir das décadas seguintes. Neste olhar de construção nacional, os elementos eugenistas estiveram muito presentes, o que realmente nos tirava do objetivo, já que éramos “atrasados, primitivos” e logo, um impedimento ao brasil se tornar uma potência como os países europeus. A partir de Vargas e um esforço pra construir uma cultura nacional “legítima”, os elementos afro foram aglutinados como elementos constituintes, embora nossa presença física não fosse tão desejável assim. Vale lembrar que a Constituição de 1934 (Vargas) constava a eugenia como objetivo de melhora do povo brasileiro.

Por mais que no contexto cultural, a brasilidade nos tenha tragado, no que podemos chamar que “só existe uma cultura nacional porque nós estamos aqui”, no contexto do poder, no contexto de vida e morte nas relações vivenciadas secularmente, das instituições criadas e que sustentam esse edifício, somos nada. Nem mesmo o zelador. Talvez apenas os blocos de sustentação do edifício.

Pensar o brasil, como parte dessa teia, tem me sido cada vez mais ofensivo e cruel. Porque a brasilidade, em sua face prática, me quer como sombra do passado, me quer como uma cultura-fantasma, de algo que “foi, fôra” e agora não é mais.

A cultura de resistir é vital pra nós, mas tem os seus limites. Ser sempre resposta a algo impede os passos da pergunta, o campo criativo e inovador da questão. O que quero dizer é que pode estar a resiliência, mas não vitória sobre o problema.

Em suma, responder enfaticamente ao racismo e seus desdobramentos é só um dos enfrentamentos. Pra vencer o racismo, precisamos saber o que é um mundo/local/sociedade sem racismo, e isto, o brasil e a brasilidade jamais vão poder nos dar.

A resposta talvez esteja no aprofundamento destes fragmentos afrikanos, em sua raiz, que nos tem salvado há séculos do extermínio, e podem nos ser possibilidades para o verdadeiro mundo que queremos viver e legar.

Por: Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares), 18 de junho de 2020.

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