Continuando…

No entanto, a vitória no STF foi também o ponto final de uma era. No sentido de uma luta nacional conjunta do movimento negro, esse é o marco do fim, em que os movimentos negros não conseguiram manter uma agenda uníssona e passam a ter ações fragmentadas.

Mas por que não houve continuidade em outras pautas tão importantes quanto esta? Há alguns pontos a serem considerados

Fora a falta de uma pauta unificadora, o atrelamento muito forte de vários setores importantes (PT) do movimento negro aos partidos de esquerda, sobretudo ao Partido dos Trabalhadores, fez com que na derrocada deste último, isso rebatesse em esferas consideráveis dos militantes e setores que militavam racialmente via partido. Os próprios ataques aos quais o PT e a esquerda em geral sofreram pós jornadas de 2013 e o surgimento de uma pauta ultraconservadora mudaram o locus de combate e investimento, antes mais diversa e plural para uma defesa da existência da esquerda enquanto um projeto viável de sociedade. As forças sociais ancoradas no projeto de esquerda se enganaram na sua manutenção no poder e no combate a sua vilanização por parte das inúmeras vozes da direita que ganharam corpo e intensidade, até o seu ponto mais alto, com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016.

Não que os grupos e atores negros identificados com os partidos de esquerda ou satelizando esse campo ideológico tivessem extrema força ou grande influência durante os mandatos petistas. A escolha das organizações e dos indíviduos do MN de ingressarem nos partidos políticos para fazerem a luta racial nestes espaços e na disputa pelo Estado levaram por exemplo, Abdias do Nascimento a ser deputado federal e senador e vários outros, como por exemplo, Benedita da Silva, que foi deputada federal por vários mandatos e governadora do RJ pelo PT. A chegada de um partido popular e de massas ao governo federal foi visto como um possível divisor de águas na situação negra do país.

No entanto, ao longo dos governos petistas, a força dos setores negros foram sendo reduzidas, a ponto de no mandato de Dilma Rousseff, nenhuma terra quilombola ter sido titulada e demarcada e o orçamento da SEPPIR no governo petista ter sido uma pequena fração do que foi no começo dos anos de governo lulista.

titulação de terras quilombolas
Olhar a matéria em: http://cpisp.org.br/terras-quilombolas-governo-dilma-titula-apenas-nove-terras-todas-parcialmente/legenda

Mas mesmo sob tais condições, as possibilidades de negociação da pauta racial nos governos petistas possibilitaram uma intermediação intensa porém custosa ao movimento negro, já que no sentido da viabilização das pautas de interesse do povo preto, muitos militantes foram foram “pra dentro” do governo, ser gestão, o que debilitou as organizações e coletivos dos seus quadros mais preparados e blindou os governos de reivindicações mais assíduas e radicais.

No que a administração petista começou a desmoronar, os quadros periféricos foram os primeiros a sentir os impactos. Os coletivos e organizações foram desmobilizados neste processo, do qual sentimos hoje o efeito: estamos num estagio entorpecido, pois fazemos coro contra a ultradireita mas não sabemos barganhar apoio de uma esquerda enfraquecida que nos tem politicamente como trunfo, como massa, e mesmo com as atuais críticas, como apoio aos seus interesses de poder. Qual é a via negra entre o binômio de poder colocado hoje?

Qual a proposta preta para o caos que estamos observando nessa pandemia? Quais as nossas intersecções com outros setores não urbanos, como os pretos da área rural, os quilombos? Do que falamos hoje e quais os públicos que pretendemos atingir?

Essa retração do movimento negro no cenário político e social tem outros pilares, que pretendo explicitar na parte 3 desse não-tão pequeno artigo.

2 Comments

  1. Nossa, eu acordei pensando exatamente a mesma coisa do penúltimo parágrafo. Ontem a PMRJ entrou na Cidade de Deus e disparou contra todo mundo durante uma entrega de cestas básicas. A pandemia no auge, pessoas passando fome, e os policiais (nenhuma surpresa aqui) ainda disseram pros voluntários “se não quisessem ser baleados, que saíssem com bíblias na mão”. Isso depois de executar um irmão de 18 anos, que saiu de casa para comprar pipa.

    Acordei pensando: a gente quer o fim da polícia militar? Quer desmilitarização? Quer negociar ainda com a esquerda? É o que que tá rolando agora? A esquerda daquela sinhá que no final sequer recebia movimentos sociais quando era gestão? Daquela outra candidata branca que tinha como plano de governo a construção de MAIS prisões? Sabe, eu dou aula de inglês pra uma pessoa que já teve um cargo super alto durante uma gestão petista e, cara, o desprezo que esse povo tem pela gente é muito flagrante… A gente quer ficar negociando com quem cita Macunaíma como símbolo do “povo brasileiro”? Me pergunto até que ponto é realmente efetivo isso. Afinal, é o que que a gente tá propondo de real pra lidar com os vários genocídios?

    Se tem uma coisa que me angustia muito é observar como a opinião pública está basicamente guiada por influenciadores digitais muito jovens. Sei que a gente tem todo tipo de demanda e tudo é importante, mas me preocupo em especial com isso porque o debate parece ter de começar do zero a cada geração. Eu mesmo só fui ouvir sobre Marcus Garvey pela primeira vez aos 25 anos. Quero dizer, não ter acesso à memória esvazia demais a gente. Em todos os sentidos, político, espiritual… E isso somado ao egocentrismo típico das redes é receita pro que a gente vê hoje. A militância tomou ares virtuais – literalmente. Pouca coisa é concreta. Além de que pouco se estuda quem e o quê veio antes, mas muito se fala sempre. Eu particularmente sinto falta da orientação dos mais velhos e de identificar propostas concretas contínuas.

    Gosto de te ler porque tem uma responsabilidade no seu texto que é difícil de encontrar e que admiro. Axé pra nóis, e que a gente siga com mais respostas. Saúde pra você e sua família. Um abraço, irmão.

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    1. Compartilhamos das mesmas preocupações e angústias. Nos deram o corner e parece que só dentro dele é que temos espaço de atuação, o que tem sido pouco pras nossas demandas. A minha crítica é a este confinamento e o pouco que ele produziu a despeito do muito que foi entregado pelos pretos da esquerda e os que foram influenciados pelas narrativas. Vejo-nos na mesma toada, mas dessa vez, sem esperanças ou com uma esperança quase cristina, cristã, de que as coisas irão mudar pelo nosso ardor e fé na atuação via este lugar.

      Acho que temos de ter esperança, mas em caminhos novos, não trilhados pelos mais velhos ou, caso sigamos suas trilhas, pegar outros rumos a partir de determinado trecho. Não podemos achar que por sermos outra geração, os resultados para as mesmas pataquadas serão diferentes. É preciso arranjar outros caminhos.

      Quanto aos influenciadores digitais, pauto um pouco sobre estes no meu texto final, que sai por domingo, eu acho. Acho que é algo incontornável, mas como fazemos pontes?

      Obrigado pelas palavras, mano!

      Axé pa Noiz!

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