De começo, quero dizer que o título é uma provocação, e já digo logo que o movimento negro (entendido de maneira plural e que propõe, induz e produz ações políticas ou não no combate a desigualdade racial) não está morto. No entanto, é preciso entender como os movimentos sociais negros passaram de principal ator político nós anos 2000 para o que ele é atualmente, com uma fragmentação e invisibilidade que lembra alguns períodos sombrios da história política nacional.

Esse processo de ascensão e queda do movimento negro no cenário político e social obedece de certa forma a agenda política nacional. Apareceu de maneira forte no período abolicionista, por meio de jornais; apareceu de maneira mais intensa a partir de 1930, com a Frente Negra Brasileira e Teatro Experimental do Negro e desponta novamente a partir de 1978 com a criação do MNU e a década dos 100 anos da abolição. Isto não quer dizer que a luta contra o racismo e a desigualdade racial parou durante os períodos não citados, mas não tiveram a mesma relevância, se levarmos em consideração a crítica e a proposição de alteração das condições do povo negro junto ao Estado e sociedade brasileira.

O mais recente momento podemos considerar como uma continuidade do último. A partir do final dos anos 1990 e início dos anos 2000, a luta por ações afirmativas tomaram corpo junto ao conjunto de organizações de combate as desigualdades raciais, unificando-as em uma pauta no intuito de influenciar o Estado a adotar políticas públicas. Num primeiro momento, as ações foram aprovadas nos concursos internos do Ministerio da Justiça em 1997, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

Após esse primeiro movimento e a Conferência de DURBAN em 2001, as ações afirmativas ganham destaque nacional ao serem aprovadas em diversas universidades públicas. A entrada de pessoas negras e pobres nestes espaços de privilégio e prestigiu acendeu o debate acalorado na sociedade brasileira que durou mais de uma década, que no plano imediato estava a validade oou não das cotas ou reservas de vagas, mas que no contexto mais estrutural estava os fundamentos profundamente desiguais do povo preto no brasil.

Os questionamentos derivados dessas discussões foram importantes para alterar a percepção dos brasileiros sobre si mesmos, mas não sem tensões e conflitos. Porém, no tensionamento do diálogo e negociação destas políticas estavam centenas, senão milhares de grupos/coletivos/organizações dos movimentos negros fazendo este debate onde quer que ele fosse necessário, reagindo ou colocando em pauta para alterar o status quo.

Mais de 10 anos de políticas de ações afirmativas em centenas de instituições públicas, o ponto político mais alto nessa Seara foi a confirmação da legalidade das cotas no Supremo Tribunal Federal em 2012, reafirmando a fala e as ações ocorridas no transcurso desse tempo em favor da entrada de pretos e pobres nas universidades públicas. O debate fora vencido politicamente e juridicamente pelos setores do MN frente aos antagonistas, aos detratores. Todavia, por que o gosto amargo? Na segunda parte, tento explicar.

1 Comment

  1. Acredito serem os momentos de impressões vazios existenciais, são momentos de tentativas de sufocamento as ações em pauta e o seu desgaste enquanto proposta política diante desta sociedade negadora de suas políticas racistas. Por outro lado, devemos perceber o esforço exigido em cada uma dessas ações a qual tem algo em seu fundo, para além da superfície em provar para essa sociedade rejeitadora da maneira de ser da população preta a sua utilidade enquanto ser pleno em seu potencial e livre para ter suas próprias ações, sem a todo momento pedir licença.

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