Eu sempre acho que nos falta Filosofia, como campo mesmo. Digo no sentido de termos um olhar mais para o que ela é e sua importância na nossa vida. E quando digo isto, não estou falando do sentido dado pelos gregos em seu plágio, mas de uma maneira geral, em que cada conjunto cultural de seres humanos tem sua percepção filosófica do mundo. E é exatamente esta aplicação que serve como lente de entendimento da realidade em que vivemos. Se pensarmos que a filosofia é uma lógica (também de base cultural), vemos a extensão do seu alcance em áreas que parecem não ter nada a ver com filosofia, como matemática, biologia, etc. Isto exemplifica porque no ocidente os filósofos não caem em desuso, sendo seus livros reeditados de maneira contumaz. O uso sistemático de suas assunções reforça a base lógica do pensamento ocidental no campo crítico e científico.

Timbuktu-library-006

Acervo da Biblioteca de Tumbuktu

Não que não tenhamos uma nossa, mas eu penso em como a situação está colocada para o povo preto, se temos um fio condutor cognitivo capaz de nos dar um direcionamento cultural. As pessoas podem me perguntar porque não tanto a ação, o símbolo de ruptura. Na verdade, estes também, mas o que é símbolo sem um significado forte, enraizado? É árvore que tomba com qualquer vento mais intenso.

Sem um fundamento filosófico-cultural, qualquer atrativo nos leva. Por isso, os trabalhos dos professores Uã Flor Do Nascimento*, Katiúscia Ribeiro** e Renato Nogueira*** ajuda e ampliam as condições de solidez de um campo que fortalece as novas direções e narrativas na contribuição de novas relações no mundo. Seus trabalhos de transcrição de filósofos e filosofas afrikanos, pesquisar seus trabalhos e/ou culturas e o foco em Khemet  (Antigo Egito) como ponto central no que podemos chamar de civilização afrikana nos ajudam a mudar a percepção sobre o próprio continente, e nisto, sobre nós mesmos, filhos e filhas de Áfrika. Estas pesquisas e estes trabalhos nos fornecem chaves para que consigamos entender a extensão contributiva dos povos afrikanos para todas as civilizações – inclusive as que se consideram mais avançadas-, mas sem o devido crédito. Ao ponto de ainda hoje estranharmos quando pensamos filosofia apartada do entendimento branco e de suas suposições.

Da esquerda pra direita: Prof. Uã Flor do Nascimento (UnB), Prof. Katiúscia Ribeiro (UFRJ) e Prof. Renato Nogueira (UFRRJ)

A Filosofia é mais sutil do que algumas bravatas, pois ela age no campo estrutural do nosso ser, por isso de seu trabalho mais extenso ao longo do tempo. Se estuda o que se está condensado, num casulo pronto, analisando o que forma este casulo. Eu só passei a enxergar isto quando vi q Filosofia tá num ditado, por exemplo, e o q o mesmo nos sugere. A riqueza dos detalhes culturais numa simples sentença. Já se perguntaram o porquê dos afrikanos serem tão proverbiais?

Pensemos os símbolos, os atos e escritas, mas a partir da mudança cognitiva. Só a mesma vai dar as respostas mais críveis e reais aos desafios aos quais estamos submetidos, porque depois da guerra e do conflito, o que sobra? O que você tem pra contribuir, pra compartilhar. E quanto mais africano-centrado você for, mais as chances de sua resposta à qualquer situação estarem linkadas à esta matriz cultural.

Leiamos bastante, mas também tenhamos consciência do que muito da base cultural que encontrarmos, estará presente na fala de nossos avós, de nossos pais, mesmo que eles não saibam a origem. Nosso dever é ligar e realçar este conhecimento que temos, mas que tem sido soterrado em nome de um outro que menospreza a contribuição dada.

Nossas Filosofias estão vivas e serão cada vez mais fortalecidas.

“Sem miolo, só há casca”.

Por: Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares), em 10 de abril de 2020.

Notas:

* professor Uã Flor do Nascimento tem um trabalho incrível de transcrição de vários filósofos e filósofas do Continente-Mãe, disponibilizando vários artigos traduzidos neste sítio aqui: https://filosofia-africana.weebly.com/textos-africanos.html

** professora Katiúscia Ribeiro tem mais de 10 anos de pesquisas sobre os saberes filosóficos do antigo Khemet, considerada uma das civilizações africanas mais antigas e avançadas do planeta. Também corrdena o laboratório Geru Maã de Africologia, na UFRJ.

*** prof. Renato Nogueira é professor do Departamento de Educação da UFRRJ. Tem uma extensa trajetória pra pensar a FIlosofia na Educação, sobretudo a infantil e escolar.

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