Escrevo esse texto no começo da tarde do dia 26 de março de 2020. E até o momento, o que posso dizer é que temos vivido um absoluto abismo entre tudo o que as organizações médicas, sanitárias e governos nacionais têm proposto pra debelar essa crise de saúde, com reflexos na vida das pessoas, nos trabalhos e com impactos na economia e… a posição do bolsonaro, que contraria as recomendações seguidas em todo o mundo, inclusive por países que estão em uma condição mais severa de contágio e colapso que o brasil de agora como Itália e Espanha.

O que se tem visto é um presidente acuado por suas próprias conclusões estapafúrdias, colocando a economia – como se esta não fosse composta pela teia de relações interpessoais, logo, de gente – acima das vidas humanas. Com isto, tem uma visão desumana e extremamente limitada dos impactos do alto contágio no seio social, não apenas com as mortes e o colapso dos leitos hospitais, mas em como isto afeta o ritmo da vida das pessoas para além daquelas que sofrem com os sintomas do vírus.

Ao que parece, as ações controversas do governo federal tem surtido um efeito a muito esperado: um despertar sobre a inabilidade do atual presidente em lidar com qualquer situação crítica, mesmo com intenso bombardeio nas redes sociais e whatsapp. Logicamente, isto tem sido um efeito cascata que só em 2020 foi fortalecido pelos resultados pífios do PIB, a alta extrema do dólar na crise do petróleo há pouco menos de duas semanas, e agora o entrincheiramento numa posição que conflita com as recomendações de seu próprio ministro da Saúde (até o momento, ainda no posto) e da OMS (Organização Mundial de Saúde). O consenso sobre o seu afastamento ganha força real por parte da mídia tradicional e por formadores de opinião. Os efeitos tem sido nítidos, já com panelaços constantes pedindo a sua renúncia pelos mesmos que lhe deram voto. Nesse contexto adverso, o presidente direciona ainda mais seu esforço para o seu núcleo duro, se cercando de aliados, via decretos exonerando generais e almirantes e nomeando outros para cargos importantes (1) e permitindo os cultos dos templos religiosos em tempos pandêmicos(2), atendendo a interesses de Edir Macedo (IURD) e Silas Malafaia (AD-Vitória em Cristo), que já diminuíram o impacto do Corona vírus. O fluxo dizimista não pode cair.

Todas estas situações parecem ter furado -mas não estourado – a bolha das fake news das tropas digitais do bolsonaro nas redes. Por mais que se queira levar fé no presidente e em suas posições e atuação, como fazer isso de maneira consciente quando o mundo todo toma uma ação contrária, de preservar vidas acima de qualquer outro valor? Mesmo aqueles países que são modelo pro eleitorado mais instruído do presidente?  Há um limite na criação de uma percepção da realidade via informação, e ela tem de ter um espelhamento real, senão essa percepção se desfaz. É exatamente este momento que estamos assistindo, e com uma radicalização nítida do clã miliciano no poder, pois eles estão percebendo o derretimento de seu já pouco apoio junto a população que tem sentido os efeitos de todo um mandato em crise, sem retornos significativos para melhora da vida das pessoas.

O espaço criado pelo vácuo de ação do governo federal fortalece a todos que queiram se figurar como possibilidade presidencial em 2022. Os governadores de São Paulo e Rio de Janeiro, João Dória (PSDB) e Wilson Witzel (PSL), respectivamente, que se valeram da onda bolsonarista pra se eleger e agora lhe são desafetos, estão nadando de braçada nesse momento, pois estão tomando medidas que se espera de qualquer gestor público comprometido com a saúde e segurança das pessoas. Cabe aqui dizer que ambos tem em seus históricos um imenso desapreço por vidas pretas, por uma ação genocida e truculenta da polícia contra territórios pretos e pobres, e que provavelmente só estão agindo com tamanha celeridade contra essa crise de contágio porque ela não obedece cep nem status social. Se fosse um surto de cólera num morro ou palafita qualquer, os posicionamentos poderiam muito bem ser “à lá bolsonaro” de hoje. Mas por fim, isso os cacifa junto aos público e aos que influenciam o jogo político para as eleições presidenciais. Ninguém perdeu o olho no prêmio. O Covid-19 só lhes deu um palco adiantado para tal, junto com a total falta de habilidade política do mandatário nacional em seguir recomendações que não são de sua alçada.

Várias pessoas que votaram no capitão reformado votaram por desesperança, ódio da corrupção, valores morais, entre tantos outros motivos. Bem, isso não importa agora. Podemos falar que não são culpados, que toda a sociedade brasileira é, mas se quem votou nesse rascunho rasurado de político não se sentir culpado por ter desperdiçado não apenas o voto, mas em muito o destino de várias pessoas com isto, quando se colocará a mão na consciência? Culpa pode não ser o melhor sentimento, mas se com esta crise não houver um aprendizado sobre o que poder ser possibilidade política e o que deve ser alijado como opção, o bueiro sempre será uma alternativa.

A latrina tem várias digitais, mas a atual, é de quem votou conscientemente no 17 no primeiro e segundo turnos das eleições presidenciais de 2018. O ódio localizado cega e emburrece, e o preço tá sendo compartilhado por todos. Ódio e messianismo nunca foram bons guias de boas práticas na gestão pública. Taí a prova.

Que o aprendizado dessa pandemia possa nos elevar a um status de consciência política que vá além do fígado, por mais ódio que tenhamos do atual cenário social, econômico e político brasileiro. Sempre se pode piorar quando falamos de grandes responsabilidades nas mãos de quem jamais deu uma prova de competência para tal.

Observação: Até o momento, o Brasil tem 57 mortos, sendo 46 em São Paulo e 2.433 infectados. As atuais condições do sistema de saúde do país fazem com que estes números estejam muito subnotificados. É possível que para cada infectado, haja pelo menos outros 15 não notificados (3).

Nota (1): https://www.jusbrasil.com.br/diarios/291157694/dou-secao-2-26-03-2020-pg-2

Nota (2): https://oglobo.globo.com/brasil/decreto-de-bolsonaro-inclui-atividades-religiosas-entre-areas-essenciais-durante-estado-de-calamidade-24329301

Nota (3): https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,presidente-do-hospital-albert-einstein-preve-pico-do-novo-coronavirus-em-duas-semanas,70003239115

Por: Tago E. Dahoma (Thiago Soares), 26 de março de 2020.

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