Texto escrito há 6 anos e me parece que estamos ainda mais perdidos e fragmentados do que àquela época..

Tempos difíceis os quais vivemos atualmente. O descortinamento do racismo, com toda a sua carga de repulsa à mostra, de ódio inflamante, nos mostra que nos encaminhamos pra dois momentos ímpares: ou estamos no fundo do poço e a reação virá na medida proporcional do ódio gerado e manifestado, com consequências a todo o tecido social, ou do fundo do poço não se pode passar, e tudo que tem acontecido aos pretos nos últimos tempos, sobretudo esse fatídico ano, servirá como alavanca de avanço político às questões raciais.

Sendo profundamente otimista neste texto – o que não significa que assim o seja -, fico a me perguntar a que tipos de avanços nós, povo preto, estamos de fato construindo. Qual a nossa proposta pro Brasil, para a comunidade negra? Seremos sempre os que irão às ruas, e na hora da negociação, negociaremos o naco? O momento me faz perceber que o praticismo político é a nossa moeda de negociação, não o método, porque carecemos de um projeto preto autônomo de sociedade. Nos encaixamos perfeitamente no lugar do que reivindica algo, mas já tendo como trunfo a não aceitação da reivindicação. Minha preocupação se reside neste simples exemplo: se tivéssemos uma carta em aberto para fazer algo em prol do povo preto, não teríamos ideia do que construir, por onde começar, quais instituições a dar fôlego. Nossas forças estão de tal forma centradas no agir, no curto prazo, que não conseguimos dar o passo maior. Estamos na luta da sobrevivência, mas não há o horizonte para quando o momento do real viver, chegar.

lelia-gonzales-foto-januario-garcia-750x410Foto da militante e intelectual Lélia González, que produziu uma bibliografia vasta pensando o brasil em conjunto com atuação política

Essas palavras são orientadas por algo simples: revoluções não se faz sem teorias, sem embasamentos calcados em princípios norteadores. Movimentos sem esta base são facilmente capturáveis e distorcidos. Dito isso: quem no seio da população negra está a pensar o devir? Temos milhares de irmãos espalhados pelo país, mas quantos de nós estão seriamente preocupados com os efeitos da luta o longo prazo, nos efeitos que a ação de hoje terá sobre os netos? Há empenho da maioria dos militantes nas causas pela igualdade racial, nas organizações, nas marchas e passeatas, seminários e congressos, mas há muitos poucos sentados na busca de nosso Horizonte, de um elemento normativo, de uma carta de intenções, no qual nossa contribuição para as relações raciais no Brasil possam estar amparadas.

Infelizmente, é compreensível não termos em abundância ativistas deste tipo. Nossa condição é exasperadora, e as ações racistas do Estado brasileiro nestes últimos tempos (Amarildo, Claudia, DG, Negro Blu, menino Joel e tantos outros) tem nos impelido à tomada de ação, num esforço reativo de estancar a sangria a qual nós sempre estivemos submetidos nessa terra. É algo que nos envolve emocionalmente, e faz da ação a única reação cabível. Faz da solução algo pra ontem. Entretanto, esse é o impulso da maior parte dos engajados na luta racial. A formulação do devir demanda tempo e a consciência de que os esforços de hoje não nos será perceptível, mas que seus efeitos serão mais sólidos. É ter a consciência que plantamos hoje o Baobá do qual nem o broto se enxerga, para que os virão depois possam ver a árvore no seu esplendor. É saber que não há glória imediata, mas que o que se combate e pelo que se luta terão um espaço assegurado. Mas quem quer cumprir tal papel? Quem quer ser aquele que no momento da efervescência, mantém a calma e segue o que aparenta “não fazer nada diante da calamidade” e aguentar as pedradas dos militantes que tão na reação? Quem aguenta o rojão de seguir o roteiro e a importância do que faz diante do rojão? Poucos.. E pelo que tenho visto, cada vez menos.

A teoria, o estudo, não pode ser pensada como algo apartado de um ativismo efetivo. Isso joga contra o acúmulo de saber que pode se espraiar para além dos limites espaço-temporais que concebemos. Pode atingir um menino sem perspectiva que antes daquele momento, jamais achou possível ser ou fazer algo de relevância. Pode ser o proto-modelo a ser seguido, a ser pensado ou até destrinchado, mas um molde para o que se deseja, pelo que se combate hoje. Urge em nosso meio o espaço e o respaldo da comunidade negra e ativista a estes indivíduos, e temo o preço que se possa pagar por isso. O devir é colocado ainda de forma muito abstrata, como um horizonte inalcançável, que quando chegar, “se vê o que se faz”. O avanço e o retrocesso na luta ficam a cargo de quais parâmetros, ditados por quem e servindo a quais propósitos?

É necessário um pacto, no qual a heterogeneidade nas formas de lutar contra o racismo e seus efeitos nefastos possam ser legitimados e apropriados por todos os pretos, os que são ativistas e os que não são. Estudar não pode ser considerado perda de tempo, tampouco a deslegitimação da ação enérgica, mas deve haver um equilíbrio para que ambas se reconheçam e se intercambiem no processo histórico. Espero que este ano, o que pra muitos pretos possa ser visto como um dos mais sangrentos e de maior ataque ao povo preto na história recente brasileira, seja também o despertar para o que queremos e para a construção de um modelo que nos permita alcançar o que almejamos.

alisha-billboard

“Há pessoas pessoas pretas no futuro”.

Por: Tago E. Dahoma (Thiago Soares), em algum momento de 2014…

7 Comments

  1. ” Texto escrito há 6 anos e me parece que estamos ainda mais perdidos e fragmentados do que àquela época”

    Obrigada pela escrita, mano!
    (Ainda não li, mas esse início me chamou atenção rsrs)

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  2. Estou cada vez mais procurando pensar no médio/longo prazo. Realmente, por vezes, se tem essa sensação de que o tempo passa e nada muda e nada acontece de construção.
    Esse texto permanecerá atual e útil por decadas ainda. Valeu!

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