A percepção da imortalidade é um conceito fundamental para pensarmos como se distingue a perspectiva cultural ocidental e a Yorubá. Cabe pensar em que ambas pensam no sentido de continuidade da vida, mas os termos diferenciam em absoluto.

Quando pensamos a busca pela imortalidade, baseada na perspectiva europeia, as histórias fazem alusão ao “fonte eterna da juventude”, ou ao “elixir da vida”, o que denota uma ideia de imutabilidade da condição material. O conceito de imortalidade está fixado a esta vivência, ao qual não sofrerá as intempéries do tempo. Ou seja, a imortalidade dessa vida só vale se ela for gozada na melhor etapa, que seria a juventude, na primazia do corpo e das sensações. O corpo, assim, é o elemento que permite amplificar as sensações, fazendo assim, dessa experiência algo rico e cheio, completo. Seria uma tentativa de ter a experiência divina a não finitude, da semelhança a experiência do que seria D’us. No entanto, nada evoca mais a morte do que a ausência de ciclos. A reflexão sobre a imortalidade em um único contexto de vida não concebe a perspectiva cíclica das emoções e situações, percebendo que não há situações infinitas, assim como inovações. Sendo assim, o que cabe aí a ideia de legado, de herança não-material? Qual a preocupação com o entorno se a finitude não é uma preocupação? Nessa questão cabe a tão propalada “vida eterna”.. O que é o mundo, senão apenas um ponto de passagem?

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No fundo, é uma ideia que teme a morte, que teme o fim, mesmo esse baseado numa condição cristã inalterável. A perspectiva da imortalidade no conceito europeu, seja em vida ou na morte, parecem elementos estanques, apesar dos desdobramentos psicológicos que buscam mostrar.

Quando penso a imortalidade em termos afrikanos, do qual discorro com mais profundidade sobre a cultura Yorubá, a imortalidade é um conjunto de vidas e mortes, que se separam entre “inspiração e expiração”. A sua imortalidade contém a morte, porque ela é indissociável da vida. A morte, portanto, é uma outra etapa de um ciclo necessário para a vida, que se reifica em seus filhos. A imortalidade é o constante retorno por meio das novas vidas que nascem em sua família. Uma criança é sempre sagrada, porque é o retorno de uma avó, de um parente distante. É novo, mas é também velho pois já fazia parte. Neste sentido, pensar o amanhã, pensar a sua influência na sua família, nos seus filhos e no mundo, diz muito sobre o impacto que você quer ter pros ancestrais em retorno, mas também pra você ao voltar ao plano da vida. Como não pensar em melhorar as suas condições, em se tornar uma melhor pessoa ou não ter preocupação com as condições climáticas ou possibilidades alimentares do futuro?
O conceito do sagrado, do que seria o Divino, não está na vida eterna e jovial, mas no bom funcionamento do ciclo e no cumprimento do seu destino consigo e com os outros nesse plano. Como não são mundos estanques, sem contato, os ancestrais têm a função de aconselhar na melhor ação desse ciclo dos seus descendentes. Sendo assim, para que temer a morte? Se teme mais a falta de filhos, que é a quebra desse elo.

Envelhecer e ver as sementes que se tornaram árvores e permitiram que o elo não tivesse fim. Uma noção de equilíbrio e sob as regras naturais que se abatem tanto sobre a mosca, como sobre o elefante.

13307192_1265806800113863_4923905427165847572_nFoto retirada da comunidade “Black Family Reunion”, do facebook.

São apenas algumas reflexões baseadas em algumas poucas leituras, alguns princípios e os desejos culturais manifestos que se mostram nas falas, expressões e objetivos. Cada civilização aponta para aonde quer seguir. Certos desejos e objetivos irão apontar para as estrelas, para a Lua e planetas desconhecidos como opção de vivência, baseada na conjectura de Terra acabada. A Terra tem seu tempo, que no nosso, é imortal. As perspectivas de nossas imortalidades, enquanto povos, enquanto humanos, também evidenciam qual será o nosso destino. Espero que o Sagrado, em sua forma cíclica e natural, prevaleça pelo desejo do elixir e das sensações em desespero da eterna juventude. São dos retornos que estamos falando, e da qualidade dessas novas vidas que está em jogo.

 

Por: Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares), em 08 de novembro de 2019.

6 Comments

  1. Eu não pude deixar de pensar na tal “maternidade compulsória”… Como ficam as pretas atuais que não desejam filhos – por motivos, inclusive, que me contemplam também?

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    1. Eu entendo esse desejo, que confesso bem atual. Mas fico pensando num sentido de ancestralidade direta. Segundo a crença iorubana, é assim que os ancestrais retornam. A não vontade de ter filhos interfere nisto. Mas é um direito das pessoas. Sendo bem simples, tenha um parente que queira..rs

      Curtido por 1 pessoa

      1. E p q os Ancestrais querem retornar? Eu carrego comigo que a terra é tipo um purgatório, tipo uma provação em que as almas humanas passam para partirem dessa pra melhor ou pior. Nessa perspectiva…voltar pra quê? Pra mim Eles ficavam nós auxiliando em outro plano.

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