Texto escrito em julho de 2016.

Aquele irmão sempre na mesma esquina, pouco mais dos 30 anos, com a vida se esmilinguindo entre conversas vazias e cervejas compartilhadas. Como é duro ver alguém com potencial muitas vezes se desvalorizar ou se sentir frustrado em seus sonhos e objetivos.

Poderia falar de maneira geral, mas falo de um homem negro, e falando desse caso falo de uma parcela bem representativa. Pontuar isto é importante, porque eu fico pensando o quanto mascaramos as nossas derrotas em sorrisos mecânicos, alegrias forçadas e olhares tristes, sem espaços verdadeiros de abertura, de cura. O quanto que se morre por dentro antes de morrer? O quanto se morre em vida tendo que ser forte sem rede de apoio e o apoio “real” não segura o reggae das suas agruras internas? O quanto se leva a vida em banho-maria ou simplesmente em água parada por objetivos destruídos ou não-concluídos?

Quantas vezes falar de temas importantes da humanização de um ser é levado como “passar pano”. Parada é mais profunda, que muitas vezes por não ser exposto, não diáloga com as ações e simplesmente se mecaniza os movimentos.

Vamos continuar morrendo antes dos 70, não só pelo racismo e por essa construção branca de masculinidade inatingível, mas pela implosão, pela corrosão do não-dito, pela pressão de ser o que não se é permitido e pelas cobranças advindas daí.

Hoje entendo que espaços masculinos são essenciais para que se modifiquem paradigmas sociais destrutivos de nossa sociabilidade, tanto para nós mesmos como para as pessoas com quem convivemos. E pela experiência que tive, só se dá num lugar com ausência de julgamentos. Porque no fundo, todo mundo tem algo a criticar e a ser criticado, mas só um dos lados tem tido o direito a “desconstruir” o outro, enquanto este só pode escutar.

A doença nos atingiu como povo, e como povo deve ser combatida achando assim a cura ou as curas. Precisamos nos ouvir. Precisamos fazer cair o muro que nos impede a comunicação. Precisamos nos tornar melhores homens, primeiramente por nós, pra que isto se espraie em quem amamos ou queremos amar.

“Demolir para reconstruir” (Molefi Kete Asante)

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