Whindersson, Carlos Maia, Felipe Netto.. blogueiros, youtubers, digital influencers.. Estes são algumas das figuras com mais seguidores e inscritos em seus respectivos canais nas mídias sociais. São os chacrinhas dos nossos tempos. São pessoas que se tornaram ricas e famosas por seu conteúdo humorístico nas redes sociais. São bem profissionais e tem equipes pagas para fazer com que suas imagens cresçam ainda mais em importância e renome, para que  continuem a ser patrocinadas, com o máximo de marcas possíveis. Hoje fazem o papel que as novelas difundiram em uma escala inimaginável e os grandes programas de auditório faziam: divertir. Alegrar. Sedar. Conformar.. Geralmente quem fez isto bem, tornou-se multimilionário (sendo branco, lógico).

O ponto chave é: porque o humor dá tanto lucro e arrebata tanto as pessoas?

Uma resposta singela: porque este humor ao qual faço referência é a base do entretenimento, e entretenimento é também um dispositivo que visa influenciar/manipular o comportamento. A emulação destas pessoas engraçadas, que nos entretém das diversas formas tem uma função de retirar tensão, de amainar conflitos. Numa sociedade atravessada por diversos pontos de tensão por conta das inúmeras desigualdades e violências perpetradas, o entretenimento tem uma função social definida, e no que é produzido e reproduzido nos espaços virtuais patrocinados – logo, em consonância com o poder vigente – que é o de afagar, rir, ser engraçado, e esquecer as mazelas, não se indignar.

Boa parte destas pessoas não se envolvem em assuntos espinhosos, em tensionamentos, a não ser aqueles que estejam dentro do campo da polêmica, da novelização das situações, para que as atenções estejam voltadas a si mesmos. Quando vemos os comediantes de stand up comedy, em sua grande maioria vemos que as rotas são quase as mesmas, mesmo quando os comediantes se pretendem mais politizados. Mas para essa categoria de humor seria necessário outro tipo de olhar, já que o alcance é diferenciado, mesmo estes inseridos na lógica das redes sociais.

Nossas artes não estão fora desse lugar, aliás, somos os principais consumidores destes produtos. Fabricações nossas, como o samba, está ainda em disputa sobre o seu papel: se é o de ser conforto, ser alerta, ser diversão.. Talvez tudo isso, mas o elemento de ser apenas prazer, de ser apenas efusivo, principalmente com o controle dos grupos, das músicas, das agremiações por mãos que não sejam pretas, joga na mesma chave do entretenimento que mais nos tonteia do que nos põe em foco. Esta alegria fabricada e reproduzida de modo fabril e febril foi também uma arma de desarme. Pessoas alegradas ( não alegres) esquecem os problemas, aumentam a faixa de suporte às agruras pelo descanso emocional, emotivo e psicológico dado, fornecido pela alegria momentânea.

Não é a toa que os estudos e patentes das redes sociais e aplicativos sobre os sentimentos humanos via algoritmos é uma mina de ouro. Induzindo emoções, se controla comportamentos, e controlar comportamentos é perfeito para a manutenção do poder estabelecido. O riso, por incrível que pareça, pode ser um grilhão sem corrente. Quem não quer se sentir bem, ainda mais em situações em que nós deveríamos estar com ódio, nervosos? O humor como uma dose.. mas dose de quê?

O entretenimento é extremamente importante pro nosso bem-estar, mas o que fazemos segundo nossos propósitos, não como dispositivo de quem nos quer na agrura.

Um humor fabril é como um remédio, que não cura a dor, mas atenua a crise. O ponto é quando ele passa a ser o mascarador da dor, como uma morfina.

O que estamos vendo não é alegria ou felicidade. Mas lampejos que precisam de sempre mais doses, pra superar a anti-esperança e o horizonte desolador de nossos tempos e vivências, mas sobretudo para causar inércia, apatia, como quando ao choro do bebê, lhe damos alguma bugiganga ou fazemos brincadeiras. O ponto é parar o choro, mas neste caso, somos o bebê sendo entretidos com toda sorte de apetrechos.

É preciso pensar nas lógicas e interesses do grande capital hegemônico em investir em tais pessoas, ou melhor na simbiose dos investimentos das redes sociais em mapear nossas emoções e fornecer tais dados às grandes empresas. Nossas emoções, a maneira como pensamos e agimos, é sempre tema e motivo de investimentos. Logicamente, essa relação não é nova. A política do “pão e circo” vem sendo atualizada pelas mudanças dos tempos, com as novas tecnologias sendo somadas e aplicadas como reprodutores dessa lógica de controle pela sensação de alegria.

Nem todo humor é nocivo a nós  (e quando digo esse nós, me refiro aos “condenados da terra”) . Ele cumpre um papel importante em também provocar reflexão, questionar valores, hierarquias, em constranger. Em se tornar necessariamente uma arma de distorção, de enfrentamento, pelo riso. Quando o riso causa escárnio de posicionamentos vexatórios, de desigualdades seculares, de ideologias e teorias anti-humanas. O humor que desestrutura tem sua acidez, seu lugar do incomodo. O humor/entretenimento que traz saciedade em meio a fome, em meio ao choro e ao caos, não tá trazendo apenas “alegria a quem precisa”, mas sendo também sustentáculo de toda essa situação.

A culpa não é do humor. É de quem financia tal espetáculo, para que as nossas gargalhadas sejam a melodia de nossa satisfação, e assim, conosco rindo, o caos continue.

Dose por dose, a apatia da alegria fabricada nos impulsiona, ou melhor, nos retrai. E neste retrair dos músculos, nos é retirado o que é vital: a indignação real, motor de toda e qualquer mudança de fôlego.

Por: Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares), em 06 de outubro de 2019.

2 Comments

  1. ” O entretenimento é extremamente importante pro nosso bem-estar, mas o que fazemos segundo nossos propósitos, não como dispositivo de quem nos quer na agrura.”

    Nós por nós.

    Curtir

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