Texto em homenagem à Lazaro Ros (1925-2005), cantor afrocubano e praticante da Santería.

Cuba, Aruba, Colômbia, Uruguai, Equador, Suriname, Guiana, Belize, Trinidad e Martinica. Ainda tantos outros países nessa Améfrica Ladina. No lado de cá, Codó, Recife e Recôncavo, fora os inúmeros locais que são base de nossa força nuclear, mesmo em meio às margens mil impostas.

Muita cegueira no enxergar de nossas grandezas, ainda presos e seduzidos pelo vício estreito do sucesso vendido por fora. Ainda de fora a nossa força-potência os sustenta, pois só isto explica o fetiche e essa aproximação tão extremada, esse ódio travestido de fascínio que nos quer até o átomo, mas nos expurga como um todo, como o universo que somos.

Manifestações culturais e religiosas de Belize, Haiti, Codó e Trinidad e Tobago

O que me machuca é que essa força-potência, essa chama de vida, há muito por eles descoberta em nós e transformada em quase tudo que o mundo se arvora, a nós, pra grande parte de nós, nada mais é que poeira, pó encastelado em casas arruinadas, em templos fechados e cera de vela seca e gasta. Miramos ao céu, ao alto, quando a Força-Vida que nos sustenta vem do chão, vem da terra. Sobrevivemos porque a nossa existência sempre se mirou do chão pra se erguer e suportar.

Por isso, olho como nos sentimos seduzidos pelos badulaques, perfumes e apetrechos mentais que os oynbo erguem a si mesmo como monumentos de grandeza, de realização humana, e me acometo sim, de uma profunda tristeza. As miradas em paris, veneza, os cafés, os bistrôs, os santos em suas versões barrocas, modernas, góticas; as bíblias com suas versões e entendimentos filtrados ao bel-prazer e interesse de quem nos aprisiona pela fé; e o nosso gozo nessa admiração que reflete a imagem de auto-realização deles. O ponto não é estar em tais lugares, é vê-los como ápice civilizatório, de pra onde devemos ir e do que devemos ser.

O mundo por esta lente é uma fresta estreita das possibilidades nossas no mundo. De ver nossas tecnologias reinventadas em formatos de sobrevivência, mas não só, de civilidade, potência humana e criatividade. Que no barro e na palha, no mato, no vento vistos imageticamente como de gente “subdesenvolvida” esconde-se o ouro da mina que eles não cansam de vir buscar para resolver os seus problemas (que acabam por se tornar nossos). A margem do mundo é o Centro, e o centro do mundo projetado é a aresta, é a margem é o escombro travestido de palácio.

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Foto por: Roger Cipó

É preciso perguntar-nos porque as nossas mais diversas formas de resistência estão intimamente relacionadas ao campo espiritual. Não das religiões, mas sim das estruturas mais diretas de contato e vivência espiritual. E porque são exatamente estas conexões que são deturpadas, escondidas, vistas como más e combatidas. O laço da ancestralidade e espiritualidade africana em todos nós é um pulsar que se bem orientado, bem canalizado, é uma força incomensurável. Ayti é exemplo, Ngola Janga também.

A força, a criatividade, a cultura está em nós, intrinsecamente em nós. A civilização tb!

Ousemos nos buscar! Os exemplos estão vivos e manifestos, pois pulsam no mundo central que é enxergado como marginal!

Por: Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares), 1 de setembro de 2019.

11 Comments

  1. Salve meu Mano, que texto bonito! A dimensão do imaterial é mais do que fundamental para superação da colonialidade, e seu texto pra mim trás esta importante contribuição. Abraços!

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    1. Porque o texto veio como uma inspiração às palavras de Lázaro, suas reflexões.. a partir do que ele pensou, eu pensei várias coisas.. louvar a Força Vital e mesmo assim procurar prestígio e reconhecimento em questões efêmeras..

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      1. pode se encontrar, mas não acho que é o que nos dá real suporte. Acho que o passageiro, o fugaz é o que tem determinado nossas ações, no sentido de nos sentirmos completos, felizes.. logo, sempre precisamos de mais pra ter saciedade.. isso nos põe muito em risco emocional.

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  2. Querido Tago .Cada uma dessas palavras e na maneira como estão orquestradas fazem sentido no meu campo de leitura e entendimento. É muito gratificante acompanhar suas mutações dentro de uma coerência que lhe é bem anterior. Ver seus rastro no asfalto quente e ainda sim saber de quem é. Abs

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