Esse foi um texto escrito em 18 de janeiro de 2012, fruto de uma descoberta à época após uma experiência pessoal, e que acaba por conversar com o tema das minhas pesquisas e inquietações atuais.

“Engraçado, mas me peguei pensando algo hoje, por mais uma vez. Na sessão de fisioterapia, me senti estranho, pela segunda vez, quando a fisioterapeuta limpou os meus joelhos dos resíduos do álcool. Fiquei estranho, com rubor abaixo da pele, meio sem jeito e com uma vontade de tomar-lhe aqueles papéis-toalha e limpar-me! O primeiro pensamento foi que ela me achou algum tipo de incapaz ou algo do gênero. Com certeza, tomaria isto por ofensa e ela perceberia meu incômodo. Entretanto, com ambas as profissionais, notei que fazem por hábito, mas que não deixa de ser uma gentileza aos pacientes que tomam aqueles choques para aliviarem suas dores nas mais diversas áreas, para se recuperarem do que quer se tenham quebrado ou machucado.

Meu sentimento, após ver as boas intenções destas pessoas, foi de vergonha. Digo isto por perceber que não estou acostumado a receber gentilezas desse nível, pequenas e carinhosas. Sou daqueles que é capaz de se ofender com tais coisas, pois foi como se desafiasse minha capacidade. Percebi que sou um lobo solitário, que raramente peço para alguém me fazer algo por fazer, como carinho. Geralmente está baseado numa troca, numa relação racional, como um negócio ou indo mais fundo, no velho “uma mão lava a outra”. Isso não é confiança, tampouco carinho. É o dar pra receber, ou simplesmente fazer por mim. Só espero estas coisas da minha mãe, mas mesmo dela, em algumas situações me sinto envergonhado em receber. Poderia questionar-me porque um simples gesto de limpar joelhos fez-me refletir tanto? Não sei, apenas sei que fez. Talvez a solidão, que paradoxalmente é a minha companheira, me faça estranhar tais atos. Talvez por tanto esperar, ou simplesmente achar fraqueza esperar, eu sempre o fiz, mesmo quando não deveria, quando não poderia, eu fiz. Fiz por mim, limpei por mim, nunca querendo dar trabalho aos outros, incomodá-los.  Este é um ponto que me irrita muito, nessa mania violentadora de me adequar aos outros, de me sentir mal por incomodar. Às vezes incomodar é o sinal que está ali, que você pede por algo, que necessita mostrar a sua existência.

Sempre me orgulhei do bebê e criança que fui. Não será daí onde nasceu toda a minha insegurança? Uma criança que chorou pouco, que não fez escândalos, que deste pequeno sabia dos limites e os introjetou de forma tão eficaz? Explica muita coisa. O medo de pedir, a ligação com o outro como uma barreira longa e larga, que vai afinando com o tempo, sem deixar de ser penoso. É esta penosidade que me faz levar as coisas de forma solitária, pois é mais fácil, sendo amargo também. Sou solitário com todos, mesmo com minha mãe, irmãos, namorada e amigos. Pouco converso com quem efetivamente amo, apesar da importância dessas pessoas na minha vida. 

Sempre por si, com o fardo da solidão, estranhando a simplicidade de uma generosidade. Mudar, negão. Conhecer-te. Fortalece tuas amizades, pois isto é te fortalecer, é saber que teus estranhamentos tem prazo pra terminar, ou para desalojar-se do teu ser. O processo tá andando, é só prosseguir e aprofundar.”

Quase 8 anos deste texto em que escrevi pra mim mesmo, e consigo perceber que mudei bastante, mas parte da estrutura se mantém. Como que me pondo de pé, a muito custo. A escrita me ajudou sobremaneira, a me rever, a avançar, e ainda há muito a fazer. No intuito de ser a melhor versão possível de mim, em benefício dos meus e minhas.

Por: Tago E. Dahoma (Thiago Soares), 25 de julho de 2019.

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