Texto escrito em 05 de fevereiro de 2017 e atualizado este ano

Tem um processo de branqueamento nítido que as ideologias não-negras fazem sobre ícones negros. Quando digo branqueamento, entenda a retirada da radicalização dos seus atos e idéias. Se pensarmos Bob Marley e Nelson Mandela, vemos que foram transformados na pomba branca da paz, quando na verdade lutaram contra a opressão, seja por meio das letras e postura, seja pelo endosso à ação armada numa Áfrika colonizada.

Nesse sentido, pensemos em Malcolm X. Será que diante de uma figura tão incisiva no combate ao racismo anti-preto, esse branqueamento teria espaço? A saída do Malcolm da Nação do Islã e sua peregrinação à Meca tem sido o vetor pelo qual diversas matizes tem tirado Malcolm de um espaço de contestamento racial para inseri-lo numa perspectiva de classe, do abandono dum discurso anti-supremacista branco para um anti imperialista, como se ambas as coisas fossem distintas.

16427530_1332691786805706_4868946509390033221_n

Malcolm despontou como figura pública em meados dos anos 1950, proferindo inúmeras palestras sob a visão da Nação do Islã, e este período no qual estudou e afiou a sua visão crítica sobre a hipocrisia dos brancos nos estados unidos, acaba por ser trocado por um período de bases em construção, de uma ideia e organização (Organização da Unidade Afro-Americana ou OAAU em inglês) que estava se estruturando para apresentar uma proposta diferenciada da qual ele havia rompido.

A questão é: há um vácuo pois é um momento do Malcolm de reformulação, e com a sua morte, abre possibilidades de entendimentos variados sobre quais seriam os caminhos que ele seguiria. E nesta transição, se aloja a perspectiva de branqueamento. Malcolm então seria a favor de casamentos interraciais, trabalharia com brancos em sua organização, e outras ideias que não sabemos se poderiam se confirmar ou não. Troca-se mais de 10 anos de um posicionamento duro, enérgico e sem tergiversação por outro que deveríamos estudar mais a fundo, ver quais são os ideais de luta.

16473014_1332689433472608_2427580081837881725_n

A perspectiva panafricana continuou, mas os outros posicionamentos do nosso irmão tem sido escritos no seu pós-morte ao sabor das ideologias que querem fazer uso de sua figura, de liberais que temem a radicalidade do seu tempo de Nação do Islã a uma esquerda que o pinta de vermelho sem o mesmo ter dito isto. Minha preocupação é com o legado que querem colocar. Pois se o melhor momento de Malcolm for o momento em que as palavras e os ideais são mais interpretados do que os realmente ditos por eles, El Hajj Malik Shabazz será mais um que terá a história em favor do povo preto e da união preta sendo deturpada ao sabor de ideais outros que não contemplam a elevação da nossa dignidade enquanto povo descendente do Continente-Mãe.

Que neste 19 de maio seu lago de luta e amor por nós continue a ecoar!

Por: Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s