O que parece ser um paradoxo, mas estar em contato com temas relacionados ao universo masculino me fez mais sensível. Na descoberta dos vernizes secos, das nossas tentativas de sermos o que fomos talhados para jamais atingirmos, eu fui descobrindo a humanidade que nós nem pensamos para nós mesmos.

Um processo de auto-descobrimento que, mesmo com todo o limite, tem me permitido mudar. É muito louco como hoje eu abraço os irmãos que me são esteio, que me permito ter afetividade. O quanto que isso me transformou em um homem mais seguro.

brotherhood

Homens tem dificuldade de receber afeto. Não é sobre sexo, é sobre afeto/carinho gratuito. É como sempre que tivesse que estar no campo da troca, do receber pra dar. Eu mesmo já questionei diversas vezes afeto gratuito, como um sinal de “moleza”, ou de desconfiança. Como se só diante de algum feito eu devesse receber aquele prêmio. A simples existência não condicionava a ter direito. No fundo, é desapreço embebido em honra, moral, orgulho. Nós temos orgulho da esterilidade emotiva. Calculamos aí a nossa força. No estar só, na total independência ou na extrema dependência do que nos rodeiam devem ter de nós. Existem poucas coisas mais anti-afrikanas do que esta percepção, que no fundo é uma ilusão corrosiva do ser.

Temos bebido água envenenada pra fortificar o corpo e a mente. É preciso limpar. Filtrar.

Precisamos nos descobrir saudáveis, honrados, orgulhosos nos afetos que compartilhamos de maneira fraterna uns com os outros. Vivenciar relações mais sensíveis, que nos permitem desfrutar da nossa profundidade enquanto seres humanos, sendo a solução do que nos é negado: compartilhando humanidade.

Nossos filhos merecem uma vivência de afetos como herança. Mesmo em meio à guerra. Mesmo em meio ao racismo. Precisamos lhes dar o antídoto que permita serem melhores do que, diante das experiências que tivemos, a gente talvez jamais consiga ser.

Pensemos a afetividade como real legado pra próxima geração de homens pretos.

*Foto de Eric e Faruq Ellis, do Instagram
** Foto capturada no Google

Por: Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares), em 28 de março de 2019.

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