Tô tentando escrever sobre estas fitas do governo, mas é realmente difícil. Este texto é meio que uma tentativa.

            É um governo sem padrão, porque simplesmente não é o presidente que governa; ele reage.. Eu já tinha uma ideia que seria dessa forma, mas a inaptidão bolsonarista e o tipo de regime que se segue (o poder foi capturado por um clã familiar que não tem ideia do que seja o Brasil e instituições) busca fazer terra arrasada no que crê saber fazer e deixar a água rolar no que não tem a menor ideia. A política é doméstica, como se estivesse organizando a casa dele na barra da tijuca, não um país. Por não saber o que fazer e onde se sustentar, se sustenta no medo. Ataca qualquer grupo que possa lhe tirar base de poder, inclusive os que ainda lhe dão aval. Todos governam menos o presidente: os ruralistas, o mercado, os filhos do presidente. É como se o pai tivesse em coma e eles tivessem a procuração escrita. A sanha de poder dos filhos é maior que a do pai, porque querem o espólio político dessa posição. É o seu momento estelar, de brilhar, mesmo que pautado na destruição desmedida do pouco construído até agora.

            As trapalhadas mostram que o intuito não é exatamente governar, mas ter um projeto de governo pautada exclusivamente numa miopia, numa realidade fantástica no modo de conceber o mundo e o direito dos outros. O clã bolsonaro se sente imbuído de prender o mundo numa ótica cristã, branca e heterossexual. O que tá pra fora disso, é passível de ser destruído, ou de estar numa posição de subjugação ao status quo. É perceptível que o horizonte das ações e do pensar os impactos é bem curto e limitado, quase como se o governo do país se equiparasse à condução das problemáticas domésticas. Em suma, o bolsonaro (des)governa o brasil como se este fosse o quintal de sua casa, permeado pelas mesmas questões e pelas mesmas relações.  O que estiver para além das questões da qual ele minimamente consegue se posicionar, ele delega sem o mínimo pudor ou tentativa de entendimento. Por isso os superministérios, os ministros intocáveis, que seriam as lentes enviesadas duma realidade que ele se nega a entender. O presidente é a excrescência do pensamento branco contemporâneo em uma visão estúpida: o que ele não entende/concorda, não presta e precisa ser destruído ou deslegitimado. O presidente de uma república continental se comporta como o dono de um boteco pequeno que jamais pôs os pés para fora do bairro. Que o bairro e as relações ali mantidas são a explicação necessária para toda a gama de complexidades existentes em todo o país.

          O ponto é que esta prática e visão tão encurtada afeta não apenas as bases opositoras, mas também as bases econômicas e culturais dos muitos que lhe deram apoio político de ocasião nas eleições. A falta de um cursor político e as ações atabalhoadas já indicam prejuízos palpáveis e outros que podem indicar tensionamentos ainda mais graves aos já existentes no país. Na esfera econômica, a queda nas exportações e o atendimento vassalo aos interesses do governo Trump com relação aos chineses, já mostram impactos nas exportações e nas produções no mercado interno de alguns produtos; na produção científica, os ataques às universidades públicas, sobretudo as áreas de Humanas e o corte nas bolsas indicam um processo inicial de letargia ou destruição da ciência nacional, que teve folego acelerado na última década; e por último, o decreto com a aprovação dos treinos de tiros e extensão do porte irrestrito de armas, num atendimento aos ruralistas e ao tensionamento agrário nas disputas por terras em várias regiões do país, sobretudo com os indígenas e quilombolas. A intenção é tornar o brasil um grande latifúndio sobre a égide neopentecostal.

            A resistência está colocada, mas a reversão de parte desta sanha megalomaníaca será de longo prazo se for plenamente instituída. O êxodo de brasileiros parece avizinhar-se, diante do caos que se aproxima. A reprodução fidedigna dos momentos pré-ditadura parecem estar plenamente ensaiados. No entanto, não são favas contadas. A própria base do governo é um ninho de várias especies, que se engalfinham pela preponderância num governo débil no controle. Os militares se cansam do desgaste de sua imagem e do apoio do clã ao “guru” Olavo de Carvalho. O tripé desse governo jamais foi sustentável a longo prazo devido a inaptidão política de quem governa, e parece ainda menos diante dos efetivos ataques intestinos pela gerencia da máquina.  Fora o que ainda se desdobrará na questão das milícias, dos quais o clã está envolvido até a medula.

            Ele ainda está no poder por conta que todos os conglomerados estão unidos pela reforma da previdência. Todos votaram um certo armistício – já que o mercado assim exigiu – para aprovarem esta catástrofe. Tão engolindo os sapos bolsonaristas por conta desse compromisso. Mas ela sendo aprovada ou não, as baterias vão atacá-lo da mesma forma que atacaram o Collor. O efeito deletério de sua gestão (sic) afeta a todos, inclusive os setores que o apoiaram. Hoje ele é uma inconveniência necessária, mas com data limitada pela Deforma previdenciária. Se ele ainda não se tocou disso, burro não é a palavra. É anencefalia.

Por: Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares), 10 de maio de 2019.

 

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